RM15 - Gênero e Religião nas Artes
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Apresentação

Gênero e Religião nas Artes

Naira Pinheiro dos Santos e Rogério Migliorini*

O que tem a arte a ver com o gênero ou com a religião? Se a arte é sempre ou quase sempre representada como o lugar da vanguarda e da inovação por excelência, a religião é vista como o lugar da tradição por natureza. E quanto ao gênero? Será que podemos dizer que a arte tem um gênero, não no sentido do gênero artístico, mas daquele que remete às relações sociais de sexo? E o que dizer da religião nesse sentido? O que tem o gênero a ver com a arte e com a religião? Gostaríamos de poder dizer que tanto as artes quanto as religiões se oferecem como espaços em que mulheres e homens encontram iguais oportunidades de expressão e de reconhecimento. Ou ainda que tanto nas artes quanto nas religiões, em suas diversas manifestações, pessoas de diferentes sexos e/ou expressões sexuais são representadas como tendo igual valor; ou ao menos que tanto uma quanto outra cumprem sempre um papel profético na denúncia das assimetrias de gênero. Sabemos, no entanto, que isso está longe de corresponder à norma, mesmo naqueles que poderiam ser considerados os “iluminados” círculos intelectuais e artísticos. Afinal, ambas – arte e religião – estabelecem suas verdades por meio de cânones. E o que é o cânon senão “uma forma discursiva que faz dos objetos/ textos que ele seleciona os produtos da excelência artística e que, dessa maneira, contribui para a legitimação da associação exclusiva entre, de um lado, a identidade masculina branca e, de outro lado, a criatividade e a cultura”1? Como bem lembra Márcia Moya em seu artigo neste número da Mandrágora, “para manter a ordem estabelecida a Igreja Católica coloca dentro de seus códigos canônicos um controle de sua iconografia [através do qual define] o que se deve expor numa imagem religiosa, e descarta o que não está dentro do dogma”2. Enfim, para além das representações que a sociedade tece de uma e de outra, tanto arte quanto religião tendem a constituir e a consagrar, por meio de seus cânones, uma lógica de inclusão/exclusão consistente com a ideologia dominante e, particularmente, com a ideologia de gênero em vigor nas épocas e lugares de sua produção e consumo. Contudo, tanto uma quanto outra também se prestam ou oferecem lugar para a resistência, a insubordinação e a subversão e, talvez, até mesmo para a inovação. É nessa perspectiva que se colocam os artigos deste número da revista Mandrágora: ao mesmo tempo em que desconstroem o gênero, apontam o olhar para os lugares da alteridade nos imbricamentos entre arte e religião – lugares arrebatados pelas(os) outras e outros diferentes – para outras relações possíveis e para o desafio que constitui a construção de um outro mundo.

É da ligação íntima entre arte, religião e gênero que trata o artigo de Márcia Moya R., “El arte grabado en imágenes religiosas”. É com essa intimidade que mulheres e homens são “plasmadas(os) pelos artistas” segundo padrões masculinos hegemônicos, mas é também com ela e apesar dela que se faz subsistir ou adivinhar outra possibilidade, a do desafio de “questionar e transformar” tais padrões. É também deste desafio que trata André Musskopf em seu artigo “Deus é brasileiro! Mas que brasileiro?” Ao analisar a imagem de Deus construída por músicas populares brasileiras, o autor aponta para a necessidade de “reimaginar Deus desde as nossas próprias experiências como pessoas com gênero e sexualidade”. Um desafio aparentemente aceito por Adélia Prado, cuja estéticaé objeto do artigo de Douglas Rodrigues da Conceição, “Religião, literatura e o eu: interfaces do feminino na estética de Adélia Prado”. Católica, Adélia jamais teria renunciadoà sua fé o que, contudo, não a teria impedido de transgredi-la e ressignificá-la “a partir de uma poética religiosa que dá centralidade ao erótico e ao corpo”.

Em “Rupturas que religam: entre o desencanto e o reencantamento” Luiz Roberto Alves
observa que desconstruir é desencantar. É o desencanto com o programa de modernização do Brasil, lançado em meados dos anos 1950, que o autor entrevê na falas dos e das personagens de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, e de Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Desencanto com a lentidão da mudança nas relações sociais, nas relações de gênero. Mas a desconstrução não tem como único resultado o desencantamento. Como aponta o autor, “do interior do desencanto surgem buscas e desejos de felicidade, de superação”. É esse desejo de felicidade e de superação que parece construir as trajetórias de Rita Queiroz ou mesmo de Mata Hari. A de Rita Queiroz na sua escolha pela arte como meio de realização, mas também de superação das limitações que a sociedade impõe às mulheres, uma arte imbricada com as religiões pelas quais transita. Uma arte liberadora, ainda que ela reproduza ali certas representações tradicionais de gênero. Esse é o tema do artigo de Fabíola Holanda e Nilza Menezes, “Religião e arte: a função libertadora da condição feminina na arte de Rita Queiroz”. A ambiguidade entre a reprodução de papéis tradicionais de gênero e o papel liberador da arte transparece também no artigo de Alexandra Kolb, “A dança de Mata Hari no contexto da feminilidade e do exotismo”. A autora analisa aí ambas as facetas de Mata Hari, a artística e a não-artística, e como estas “se adequavam a certas imagens estereotipadas da mulher, ao mesmo tempo em que também subvertiam as convenções sociais”.

O desejo de existir de três mulheres às quais foram dedicados livros bíblicos no Antigo Testamento, a saber, Rute, Judite e Ester, é abordado por Adna Candido de Paula
no artigo intitulado “Tragédia, epopeia e lírica: as narrativas das mulheres do Antigo Testamento”. A “capacidade de falar, de agir, de contar, de se imputar e, principalmente, de prometer e de cumprir com a palavra dada” tornaram-nas sujeitos capazes – capazes de existir, mas também de serem responsáveis pelo outro.

É esse desafio de existir como sujeitos capazes de desencantar e reencantar que nos
é lançado por elas e eles, articulistas deste número da Mandrágora, e que culmina com 10 GÊNERO E RELIGIÃO NAS ARTES o convite de Marcus Alexandre Motta em seu artigo “Em breve… sim, mais tarde… olhos alheios, aqui… talvez… – ‘Orlando’, de Virgínia Woolf”. Um convite a transgredir transcendendo ou mesmo transcender transgredindo as regras e fronteiras da própria arte, do gênero e da religião, do conhecimento e cânones que estes constituem, para se deixar ser ou transcender o seu ser, e se descobrir existindo ou não nos olhos de Orlando. Um convite e ao mesmo tempo um desafio a que gênero(samente)” nos interessemos em e por alguém. Um desafio – o de ouvir e o de se interessar – ao qual somos instadas/os pelo testemunho de Fatima Elayoubi em seu poético livro Prière à la Lune, resenhado por Naira Pinheiro dos Santos. Um chamado a dar voz, ao qual nos convida a história de Dinah, que nos é apresentada na resenha de A tenda vermelha, por Priscila Andrade Magalhães Rodrigues. Desafios, enfim, sobre os quais nos fazem refletir ainda uma vez as comunicações de Felipe Fanuel Xavier Rodrigues, Glória Maria D. L. Pratas e Naira Pinheiro dos Santos. Para enfrentar esses desafios, pode ser que algumas/alguns aqui e alhures escolham apenas e simplesmente a espada, mas é sempre bom lembrar, com Mme. Elayoubi, que “a Escritura salva”..


* Naira Pinheiro dos Santos é doutoranda e Rogério Migliorini é mestrando em Ciências da Religião na Umesp - Universidade Metodista de São Paulo. Ambos são membros do Grupo de Estudos de Gênero e Religião Mandrágora/Netmal.

1 « Une forme discursive qui fait des objets/textes qu’il sélectionne les produits de l’excellence artistique et qui, de cette manière, contribue à la légitimation de l’association exclusive entre, d’une part, l’identité masculine blanche et, d’autre part, la creativité et la Culture ». Griselda POLLOCK, Des canons et des guerres culturelles In:Cahiers du Genre, nº 43, Paris : L’Harmattan, 2007, pp.54 e 55.

2 “Para mantener el orden establecido la Iglesia Católica coloca dentro de sus códigos canónicos un control de su iconografía, desde el Concilio de Trento, y más tarde la Santa Sede coloca en el Código Canónico en los artículos 1.255, 1.276 y 1.279 (RÉAU, 1999d: 13), lo que se debe exponer en una imagen religiosa, y lo desecha todo aquello que no esta dentro de sus dogmas.”



Sumário


Editorial
Fernanda Lemos e Ana Carolina Chizzolini Alves

Apresentação
Naira Pinheiro dos Santos e Rogério Migliorini

ARTIGOS/ARTICLES/ARTÍCULOS
El arte grabado en imágenes religiosas
A arte gravada em imagens religiosas
The art printed in religious images
Márcia Moya R.

Deus é brasileiro! Mas que brasileiro?
God is Brazilian! But what kind of Brazilian?
¡Dios es brasileño! ¿Pero qué brasileño?
André Musskopf

Religião, literatura e o eu: interfaces do feminino na estética de Adélia Prado
Religion, literature and the self: feminine interfaces in Adélia Prado’s aesthetics
Religión, literatura, y el yo: interfaces del femenino en la estética de Adélia Prado
Douglas Rodrigues da Conceição

Rupturas que religam: entre o desencanto e o reencantamento
Ruptures that reconnect, between disenchantment and re-enchantment
Rupturas que reatan, entre el desencanto y el reencanto
Luiz Roberto Alves

Religião e arte: a função libertadora da condição feminina na arte de Rita Queiroz
Religion and art: the releasing function of the female condition in Rita Queiroz’s art
La religión y el arte: el papel liberador de la condición de la mujer en el arte de Rita Queiroz
Fabíola Holanda e Nilza Menezes

Mata Hari’s Dance in the Context of Femininity and Exoticism
Por Alexandra Kolb

A dança de Mata Hari no contexto da feminilidade e do exotismo
Mata Hari’s dance of in the context of femininity and exoticism
La danza de Mata Hari en el contexto de la feminidad y del exotismo
Alexandra Kolb, tradução de Rogério Migliorini

Tragédia, epopeia e lírica: as narrativas das mulheres do Antigo Testamento
The tragedy, epic, and lyric genres: the narratives of women from the Old Testament
Tragedia, epopeya y lírica: las narrativas de las mujeres del Antiguo Testamento
Adna Candido de Paula

Em breve… sim, mais tarde… olhos alheios, aqui… talvez… – “Orlando”, de Virgínia Woolf
Pronto… sí, más adelante… ojos ajenos, aquí… quizás…– “Orlando” de Virginia Woolf
Soon… yes, later… other people’s eyes, here… perhaps… – “Orlando” by Virginia Woolf
Marcus Alexandre Motta

RESENHAS
A espada, o esfregão e o lápis
Naira Pinheiro dos Santos

Em memória de Dinah: uma das muitas mulheres esquecidas nos relatos bíblicos
Priscila Andrade Magalhães Rodrigues

COMUNICAÇÕES
“Hail, Macbeth!”: uma saudação profética que prenuncia uma condição humana
“Hail, Macbeth!”: a prophetic greeting that predicts a human predicament
“Hail, Macbeth!”: un saludo profético que predice una condición humana
Felipe Fanuel Xavier Rodrigues

O feminino na arte medieval
The feminine in Medieval Art
El femenino en la Arte Medieval
Glória Maria D. L. Pratas

Chocolate, o filme: uma leitura do lugar das mulheres na ordem das coisas
Chocolate, the movie: an interpretation of the place of women in the order of things
Chocolate, la película: una lectura del lugar de la mujer en el orden de las cosas
Naira Pinheiro dos Santos

POESIA
Brigite
Mirian Mee



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